COLAGENS

por Coletivo dos alunos da turma do curso "A Imagem, o Meio e o Ambiente".

curso "A Imagem, o Meio e o Ambiente", ministrado pela fotógrafa e artista visual Marilene Ribeiro em março/2021, traçou um panorama histórico e contextual sobre a representação da paisagem, da natureza e dos diversos ambientes ocupados e transformados pelo homem, além de propiciar espaço para se debater sobre a imagem e suas funções na relação ser humano-ambiente.
 

A parte prática concentrou-se na produção de uma peça individual com a técnica de fotocolagem manual e foi concebida, trabalhada e finalizada por cada participante, ao longo do curso.

Marilene Ribeiro é artista visual e pesquisadora brasileira. Sua prática mescla fotografia, vídeo, intervenção e colaboração, com foco em assuntos contemporâneos, identidade e temas socioambientais. Tem trabalhos premiados pelo PhotoEspaña, Royal Photographic Society, Museu da Imagem e do Som - MIS, Prêmio Esso de Jornalismo, finalistas a prêmios do Les Encontres d’Arles de La Photographie, Marilyn Stafford FotoReportage Award, Biennial of Fine Art & Documentary Photography, Encontros da Imagem Photography and Visual Arts Festival. Doutora em Artes Criativas pela University for the Creative Arts (Inglaterra) e Mestre em Ecologia Conservação e Manejo da Vida Silvestre pela UFMG (Brasil). Recebeu treinamento pela Magnum Photos. Atualmente é pesquisadora visitante da Escola de Mídia e Cinema da Universidade de Winchester (Reino Unido).

PaLaVras FoTo GRÁFIcAS

Textos de Rosângela Gomes

Nasci nessas terras montanhosas cor de esmeralda e cheiro de minério de ferro. Desconfiada mas fraterna como boa mineira. Justa como uma balança bem equilibrada. Desenho, bordo, fotografo, planto, viajo, danço, leio muito. Troco conversas por sabedoria e experimento a vida com todos os seus altos e baixos. Sou profundamente curiosa e escrevo quando as imagens não me encontram.

Esses textos-imagens são minhas refotografias de imagens criadas pelos participantes do Curso Imagem, Meio e Ambiente ministrado pela artista visual Marilene Ribeiro no Núcleo FAC – Fotografia, Arte & Cultura.

Obras 

Título da Obra: Mãe Terra
Autor: Beto Eterovick


Técnica de colagem sobre foamboard, com aplicação de fotografia, aquarela e folhas esqueletizadas.

 

"Mistura do ser humano com a natureza. O autor diz que a terra foi calada porém ela não está, ela fala de outra maneira através das feridas próprias e das feridas do seres. 

A esqueletização das folhas remete à destruição da pele que protege o corpo humano quanto à pele dos outros seres, a pele da terra, o solo.

Os olhos fechados sugerem uma introspecção, uma reflexão, a força da transmissão de um desejo de transformação da vida no mundo. A esperança de uma regeneração".

 

Beto Eterovick é mineiro de Belo Horizonte. Formado em Biologia, fato que influencia constantemente sua produção como fotógrafo e aquarelista. Tem se dedicado nos últimos anos ao aprofundamento da aquarela e sua fusão em trabalhos híbridos com a fotografia.

 

Título da Obra: "concertina"
Autora: Kika Antunes

 

Concretar, cimentar, unir dois mundos que expõem as escolhas humanas ou revelam suas dicotomias. Tekhno arte, artesanato, indústria, ciência, lógica, linguagem, natura, curso das coisas, universo. 


Escolher não significa descartar uma opção. O fio verde é um caminho que liga as escolhas e permite que se vá ao outro lado e se retorne. É como sangue, como seiva que percorre essas nossas polaridades. 


Somos casa: casa-cimento-pedra-vidro-concreto-paredes. Somos casa: terra-raizes-plantas-animais.
 

Estamos encarcerados, aprisionados na tela tecnológica, na trama urdida pelas linhas que demarcam nossas propriedades, mas temos pés que querem caminhar outro caminho, que quebram janelas, que destroem muros,  que sonham com outros mundos, coração que quer expansão, fugir por janelas entreabertas, pisar no chão pedregoso, expandir raízes por sobre a terra, inflar-se, voar, ser livre e habitar casas de insetos em árvores protegidas por passarinhos. 

 


Kika Antunes estudou Comunicação Social até meados de 1991, mas foi na aventura e imersão em um laboratório e em cursos livres que descobriu a fotografia como expressão. Desenvolveu trabalhos essencialmente no âmbito das artes cénicas, espectáculos e fotografia documental. Mesmo com um percurso na fotografia comercial foi só em 2016, após uma ruptura com a fotografia convencional e um período de questionamentos do próprio fazer fotográfico, que passou a se dedicar à fotografia de autor. Pesquisa e dirige sua produção artística especialmente para os temas das desimportâncias, as do mundo e as próprias.

Títulos das Obras: ORCHIDS AFFECTIO e PHAENOMENON
Autora: Ana Bouissou

 

ORCHIDS AFFECTIO

A infância revisitada através das memórias e afeto a um avô orquidófilo numa composição que reflete a relação do meio natural e o meio construído, apresentando o equilíbrio desta interação armazenado, para que não se perca no tempo através dos valores distorcidos de riqueza.

PHAENOMENON

Fenômeno natural como simbolismo referente à Fenomenologia do filósofo Edmund Husserl.

O calor proveniente da quantidade de informação, estímulos e experiências, como catalisador de um processo de transformação que oferece recursos para a fecundação de idéias, pensamentos e formação do Ser.

O fundo é uma trama, um tecido, um entrelaçamento de forças, um chão, um suporte. 


É a cidade onde está o humano. Ele serve de aparato para as flores, que são leves, que crescem sobre esse chão, que se enraízam nele, que avançam sobre as paredes, os muros trazendo vida para aquilo que seria aparentemente inanimado. 


A transparência das folhas é uma gentileza, aquilo que não apaga, não se sobrepõe ao que está por baixo, aquilo que acaricia, protege.


Os fios podem ser veias, ruas que carregam, transmitem a vida. Esses fios remetem à liberdade como se as flores pudessem voar como balões, pipas sobre a cidade. 
 

O vidrinho contém o que alimenta a vida.

 

A Mineira Ana Bouissou despertou para o universo artístico com o design de jóias e com a fotografia. É habitualmente aluna em diversos cursos livres de artes, filosofia, antroposofia e demais áreas relacionadas ao desenvolvimento humano, e tem como característica a utilização de diferentes técnicas e suportes na execução das suas obras.

Títulos das Obras: sem títuo
Autora: Ligia Nassif

Terra ferida, descarnada, esfolada, queimada no seu corpo, na sua pele deixando expor seus músculos, seus órgãos. 

O fio azul tenta suturar a ferida, acalmar a pele, restabelecer o equilíbrio. 

A imagem cortada como terra arada e no sulco planta-se ramos e flores secas, estranhamente sempre-vivas na tentativa de recompor a floresta destruída, criando-se uma experiência ilógica, bizarra, supra-real, Kafkiana. 

A flor-borboleta sai do casulo voçoroca para sobreviver na pequena floresta de galhos e flores secas, porém excentricamente sempre-vivas. 

As margens invadem a imagem como terra desmoronada, como avalanche de águas barrentas desgovernadas.  

 

Ligia Nassif é mineira de Belo Horizonte.  Imprime a geofotografia nas suas produções com experimentações e fusões dessas duas vertentes que permeiam sua vida.  Tem se dedicado a trabalhos autorais envolvendo o hibridismo e outras artes.

Títulos das Obras: ESPERANÇA, ÁRVORE DÁ VIDA e ASSUM PRETO
Autora: Rachel Alvarenga

 

ESPERANÇA

Técnica de colagem sobre papel cartão colorido com aplicação de recortes de revistas.

Estamos num planeta doente, mas como em uma aldeia dançamos com os  pés no solo de terra, que mistura e amalgama o barro, a pedra e o galho, como um bicho que prepara a substância que irá curar seu espírito, que irá reconstruir sua casa.

As águas purificarão a Terra-planeta que sofre com sua enfermidade e nos sofrer, mas como num afago, nos acercamos desse enfermo e entoamos nosso canto de esperança. 

ÁRVORE DÁ VIDA

Técnica de colagem sobre papelão com aplicação de folha seca, fotografias e recortes de revistas.

Memória e tempo, evolução. Terra, vida, seres, vida, humanos, vida. A energia da vida se espalha por todos os cantos, envolve tudo que se arrasta, que corre, que caminha, que voa, que estaciona. 


O tronco, a madeira protegem e remetem ao barro, que numa mistura constrói os tijolos de uma parede de adobe que pode abrigar todos os seres. 


A folha mesmo seca envolve, sombreia, abraça o homem e suas descendências.


Abriga e alimenta os seres que se espalham por todos os cantos. 

ASSUM PRETO

Técnica de colagem sobre papelão com aplicação de recortes de revistas e materiais plásticos (lixo).

Sufocamento, aprisionamento. O azul é água, mar, céu, porém aqui é uma coleira que escraviza, que limita a liberdade, que apropria. 


O pássaro está plastificado, banhado naquela substância negra e tóxica, que vaga pelos mares, que cobre as águas, que sacrifica a vida. 


O verde do galho é fake, falso, fabricado, enganador. É a floresta que não está mais lá para abriga-lo, protege-lo. 


A coleira de plástico imita o céu, onde ele deveria ser livre. Agora é o azul que identifica: única saída para a sobrevivência. 
 

Rachel Alvarenga de Andrade Gomes é mineira de Sete Lagoas e hoje mora em Guimarães, Portugal.
Cursou Belas Artes na UFMG e Gestão Pública na UNIBH. Nos últimos anos, voltou a fazer cursos na área de artes visuais.

Encontrou na colagem analógica um meio de expressar sua sensibilidade aliada a uma técnica que agrega outras paixões, como a fotografia e o bordado.

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