OS YANOMAMI NA FOTOGRAFIA DE CLÁUDIA ANDUJAR

Texto Dúnya Azevedo

O livro Marcados, da fotógrafa Claudia Andujar é composto de uma série de 82 fotos dos índios Yanomami realizadas entre 1981 e 1983 na região do Brasil entre Roraima e Amazonas. Naquela época, Andujar acompanhou dois médicos na realização de um trabalho ligado à saúde dos índios que tinham contato com o branco naquela região. O objetivo era fazer um levantamento da situação e da saúde dos índios em contato com o branco. Para isso era preciso identificar toda a população e coletar dados para a futura demarcação de seu território (SENRA, 2009).


Para o trabalho fotográfico, foi utilizado o método tradicional de identificação: fundo neutro, retrato frontal com um número preso ao corpo do fotografado. Na visão dos criadores do projeto que visava a preservação da saúde dos indígenas era um simples registro neutro dos índios para constar nas fichas de identificação. A estética da simplicidade desses retratos deveria garantir a legibilidade do registro. No entanto, o formato “retrato de identificação” é subvertido pelos fotografados que criam suas próprias encenações diante da câmera. Essa mise-en-scène é compartilhada pela fotógrafa que constrói as imagens a partir de sua experiência com aqueles povos.

 

A publicação do livro Marcados, em 2009, é um resgate desse trabalho desenvolvido no passado e uma forma de dar identidade àqueles que, naquele contexto histórico, foram rotulados e classificados como números pelo homem branco. Nesse projeto, Andujar retoma então, de forma poética, uma questão central em seu trabalho: as consequências traumáticas do contato da cultura indígena com o branco. A serialização das imagens e a repetição dos retratos na narrativa do livro confere a elas um novo sentido.

 

Cláudia Andujar identifica esse trabalho com sua própria história familiar, uma vez que algumas pessoas de sua família foram marcadas com números ao serem deportadas para os campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Marcados faz referência aos judeus marcados com a estrela de Davi costurada na roupa. Essa era a marca de identificação daqueles que seriam deportados para os campos de extermínio na década de 1940 na Europa nazista. Claudia Andujar conta que foram marcados para morrer seu pai, seu tio e sua avó. Apesar de os números usados para a marcação dos índios não terem como finalidade a morte e sim a vida, Andujar viu nesse procedimento uma referência ao sistema de controle construído pelo mundo do branco (ANDUJAR, 2009).

 

A extensa obra fotográfica de Claudia Andujar sobre os índios Yanomami foi desenvolvida entre os anos 1970 e 1980 e compõe, no contexto da fotografia contemporânea, a iconografia dos povos indígenas no Brasil. Nascida na Suíça em 1931, Andujar viveu na Hungria e mudou-se para os Estados Unidos após perder quase toda sua família durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1955, se instala em São Paulo e começa a viajar pelo Brasil e pela América Latina, fotografando. A partir de 1967, a fotógrafa passou a colaborar com a revista Realidade, da Editora Abril. Em 1971, uma edição especial da Realidade sobre a Amazônia a conduz até os Yanomami. Essa viagem marcou sua carreira e sua vida, pois a partir dessa experiência, Claudia decide abandonar São Paulo para viver entre Roraima e Amazonas junto aos índios com o objetivo de compreender e vivenciar a cultura desses povos.

 

Segundo a própria fotógrafa, um passado de guerra a levou a se interessar pela questão da justiça e das minorias. Ela encontra na fotografia uma forma de falar de si mesma por meio do outro. Sua atuação junto aos indígenas vai além da experiência como fotógrafa, ela se engaja na causa, especialmente dos povos Yanomami, dedicando seu tempo em defesa dos direitos territoriais e de sobrevivência daquele povo. Fotografou os Yanomami, com os quais tinha uma relação afetiva, durante mais de vinte anos. As imagens constituem uma memória que é resultado do compromisso e lealdade que perpassa a relação entre a fotógrafa e os fotografados.

 

A partir de 1973, durante os anos do “milagre brasileiro”, o território Yanomami na Amazônia brasileira foi invadido para a construção de uma estrada que abriria a Amazônia para a indústria. A mineração abriu as portas para a procura de ouro, diamantes, cassiterita, garimpos. Com o contato com o branco, muitos índios adoeceram e morreram (ANDUJAR, 2009).

 

Em 1978, Andujar foi enquadrada na lei de Segurança Nacional pelo governo militar e foi expulsa do território indígena pela Funai. A partir daí, de volta a São Paulo, seu ativismo deu origem ao grupo de estudos em defesa da criação de uma área indígena Yanomami que foi o embrião da ONG Comissão pela Criação do Parque Yanomami. Andujar sempre esteve à frente da luta pela demarcação das terras desses indígenas, que ocorreu em 1992.

 

A aproximação entre os povos indígenas e o homem branco sempre foi traumática para os índios, seja pelo genocídio e doenças trazidas, seja pela imposição da cultura do branco, que via a do índio como primitiva e atrasada, ou pelos procedimentos de documentação desses povos que, muitas vezes, deixava sobrepor o elemento exótico ao etnográfico.

 

No século XIX, a fotografia era uma ferramenta científica que permitia produzir tipologias ou estatísticas úteis na identificação de raças e identidades. Ela, muitas vezes, esteve ligada às questões de poder e de controle social, como mostram os clichês etnográficos, os retratos feitos pelos serviços de polícia ou os estudos sobre criminosos e loucos. Nas expedições etnográficas do início do século XX, a civilização indígena era vista e representada de forma passiva e à disposição dos recém-chegados. Muitas fotografias que compunham os álbuns etnográficos apresentavam índios com olhares medrosos ou curiosos diante da câmera. A fotografia serviu também à domesticação do índio no estúdio fotográfico, onde se articulava uma encenação deslocada da cultura nativa dos fotografados. Esses procedimentos alheios à cultura indígena provocavam traumas naqueles que, muitas vezes, aceitavam passivamente as imposições de outra cultura.

 

A ambiguidade do trabalho de identificação dos índios realizado na década de 1980, como a própria fotógrafa o define, está no fato de que ao mesmo tempo que a marcação dos corpos visa a identificação de cada um cujo propósito é salvar vidas, não deixa de ser uma invenção de uma cultura alheia que sempre provocou violência na aproximação. O próprio ato de fotografar traz essa ambiguidade às imagens, pois ele também é provocador de trauma.  “Vítimas do rastro de destruição deixado pelo branco, mas dele dependendo também para sua salvação, os Yanomami são, a um só tempo, condenados à morte e prometidos à vida” (SENRA, 2009, p. 129).

 

Como se sabe, a marca sobre o corpo se prestou, ao longo da história, ao controle das populações por um poder dominante. A própria experiência da guerra e da morte de parentes nos campos de concentração nazistas foi para a fotógrafa um trauma que ela não pode deixar de relacionar a essas imagens. 

Também para os índios, a marca no corpo e a disponibilidade para a imagem organizada para o mundo do branco evoca, em um certo sentido, o trauma de contatos violentos provocados pela cultura estrangeira. Trata-se aí, então, de imagens que revelam um duplo trauma, o do índio que se vê, mais uma vez, vítima do contato com a cultura do branco, e o da própria fotógrafa, vítima do que a intolerância racial foi capaz de produzir na Europa nazista do século XX.

 

A necessidade de reorganizar esse material e dar às imagens um novo sentido tantos anos após sua produção talvez seja, para Andujar, também uma forma de elaborar seu próprio trauma. Não mais retrato de identificação de uma raça com o objetivo de reconhecimento, pela fotografia, das características físicas do outro, mas o que a artista faz é dar rosto ao índio como forma de restaurar a humanidade perdida pelo contato com uma cultura que quer se impor. 

 

Para além da obra de documentação fotográfica, o ato instaura uma dimensão relacional entre mundos diferentes. De um lado o olhar da fotógrafa (e através dele, o do espectador), e de outro, o dos índios. Através da imagem, somos interpelados por esses que nos olham. A câmera que fabrica o outro através do olhar tem o olhar devolvido por esse outro, que em vários momentos, inverte o ritual do retrato de identificação. Alguns olham para a câmera como se a tivessem observando curiosamente, outros parecem temê-la, outros parecem dela zombar e alguns ainda parecem alheios a ela, como os exemplos a seguir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MARCADOS, Cláudia Andujar, 2009.

fonte: arquivo pessoal

    

As crianças que figuram nas fotos parecem acuadas diante da câmera como que diante de um bicho estranho na iminência de um ataque. Nessas fotos, o enquadramento vertical cortando pela cabeça e na altura das pernas as cerca ainda mais no quadro, reforçando o jogo caça-caçador. Em uma das fotos, uma mão, que parece ser de um adulto, segura a criança pelo braço garantindo que ela não irá fugir do procedimento que para a criança parece assustador. A submissão à cultura do branco pode ser percebida também no adesivo colado na barriga da criança fotografada em uma das fotos. Trata-se de um desenho de um urso com a inscrição “bear”.

 

Ao assumir que a fotografia também é causadora de choque, Andujar reforça a expressão das consequências do contato: não só o número pendurado no pescoço, mas a documentação pela imagem.

 

 

 


Bibliografia

 

ANDUJAR, Cláudia (2005). A Vulnerabilidade do ser. São Paulo: Cosac Naify.

 

ANDUJAR, Cláudia (2009).  Marcados. São Paulo: Cosac Naify. 

 

BARTHES, Roland (1984). A Câmara Clara. Nota sobre a fotografia. Tradução de Júlio Castañon Guimarães.Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

 

DIDI-HUBERMAN, Georges (1998). O que vemos, o que nos olha. Tradução de Paulo Neves - São Paulo: 2º Edição.

 

Entrevista Claudia Andujar (2010). Fórum Latino-Americano de Fotografia de São Paulo,.  http://povosindigenas.com/claudia-andujar/

 

TACCA, Fernando de. O índio na fotografia brasileira: incursões sobre a imagem e o meio. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.18, n.1, jan.-mar. 2011, p.191-223.

 

SENRA, Stella. (2009). O último Círculo. In: Marcados. São Paulo: Cosac Naify. 

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